(Antfer) #1

Entrevista



  1. EXAME. AGOSTO 2020


biente em que cresce, e isso é perigoso,
no sentido em que os adultos, muitas ve-
zes, discordam sobre que valores devem
ser ensinados, que crenças as crianças
devem ter...E como resultado, há medo.
Sobretudo quando se fala num programa
de governo. Eu acho que toda a gente tem
medo do governo [risos], exceto o governo
em si. Como se as pessoas temessem um
Hitler ou Estaline de novo, não obrigato-
riamente num sentido ditatorial, mas no
sentido de um governo que pode mudar
os valores ensinados. Suponha que é par-
te de uma minoria religiosa, que acredita
no zoroastrismo e vive na Índia. Sabemos
que eles têm imensos problemas por se-
rem uma minoria. Eles têm diferentes va-
lores que ensinam às suas crianças. Resu-
mindo, ninguém duvida da importância
da educação. Duvidam é de que alguém,
em particular, deva estar em controlo
nessa formação inicial. Toda a educação
tem muita importância na ética, na forma
como as pessoas tratam as outras. Acho
que é muito difícil separar a formação de
carácter do ensino puro. Por exemplo, na
Dinamarca está uma proposta em cima
da mesa para tornar a pré-escola obri-
gatória para todas as crianças, incluindo
as imigrantes. E há uma razão para isso:
eles querem que as crianças aprendam
dinamarquês antes de entrarem na esco-
la. Mas também querem que as crianças
aprendam a cultura dinamarquesa, e os
imigrantes árabes, por exemplo, não estão
muito confortáveis com isso: eles educam
homens e mulheres de forma diferente.


Especialistas em todo o mundo apon-
tam para um aumento das desigualdades
devido ao ensino à distância a que esta
pandemia obrigou praticamente todos os
países. Concorda?
O gap é grande, e já o era antes do co-
ronavírus. Agora, sim, está a aumentar.
E era importante perceber a estrutura da
desigualdade. As crianças de famílias com
mais posses têm outras oportunidades
de aprender, têm outras ligações, até, do
que as crianças mais pobres. Nos EUA, os
números mostram claramente que o di-
nheiro gasto em educação por cada crian-
ça, por parte das famílias abastadas, está
constantemente a aumentar, ainda que
pouco. Mas eles já têm boa educação,


no fundo. E ninguém quer projetar o pior
cenário. Não o fizemos para a guerra nu-
clear e, possivelmente, não o vamos fazer
para a Covid. O que vai acontecer, acredi-
to eu, é que as pessoas vão tornar-se mais
espertas, vão apontar as baterias a uma
estratégia que acredito ser a de proteger
os grupos de risco: os mais velhos e os
doentes crónicos ou com o sistema imuni-
tário comprometido. Parece-me bastante
óbvio, porque a taxa de mortalidade junto
dos idosos, por exemplo, é muito eleva-
da. Nos EUA é de cerca de 43 por cento.
E temos evidências de que os mais novos
passam praticamente incólumes. Portan-
to, essa estratégia parece-me sábia. Só que
vai criar imensos problemas.

Acho que
toda a gente
tem medo do
governo, exceto
o governo,
em si”

brinquedos, aulas particulares. E junte a
isto o facto de, geralmente, estas crianças
serem filhas de pais com um maior nível
de educação formal. E, nos EUA, há ainda
outro fator, que é o facto de geralmente
serem crianças que beneficiam de duas
premissas importantes: terem um pai e
uma mãe, e terem um pai e uma mãe com
formação. Que lhes ensinam vocabulário,
sabem responder às perguntas.

E nas franjas da sociedade, as crianças
sem acesso a isso.
Podemos falar das questões mais básicas,
como os mais pobres terem falta de mate-
rial que só está acessível online e, às vezes,
não haver quem o consiga comprar. Mas
também devíamos olhar para as crian-
ças mais novas. Elas gostam de jogar e há
toda uma indústria em redor de jogos di-
dáticos e aplicações que pode ser muito
útil porque ensina efetivamente coisas aos
miúdos. Mas acho que o ensino à distân-
cia com um professor a tentar falar com
crianças de 4 ou 5 anos falhou... É muito
intenso e difícil, sobretudo para as famí-
lias menos estruturadas.

Em termos económicos, a incerteza pa-
rece ser a única certeza. Acredita que as
respostas que estão a ser dadas, global-
mente, são as corretas?
Creio que estamos num momento de pura
ambiguidade, que ainda está a ser escrito.
A teoria da ambiguidade nas Finanças e
outras áreas da economia... nós não sabe-
mos! E se não sabemos, não podemos ter
uma boa teoria. Sabemos algumas coisas
que podemos fazer: podemos observar o
que se passa, agregar os dados e projetar
o melhor e o pior cenário. Mas o pior ce-
nário pode ser muito extremo. Mas não
sabemos. É mais fácil dizer do que fazer,