(Antfer) #1
AGOSTO 2020. EXAME. 17

As estatísticas
até mostram
que é muito
mais provável
que as crianças
negras vão
à escola, e
cheguem à
universidade”

Então, os negros são mais pobres?
Bom, nos EUA há uma desigualdade enor-
me entre negros e brancos, mas isso leva-
-nos ao tema inicial da nossa conversa. E
volto a dizer que, atualmente, tudo se tor-
nou tão politizado que se torna difícil dis-
cutir o assunto. Mas, por exemplo, sabia
que 70% das crianças negras nascem em
famílias monoparentais? E aqui, generica-
mente, uma mãe ou um pai solteiro não
tem muito dinheiro, tem menos educação
formal, baixos salários e responsabilidades
imensas. São pessoas que trabalham mas,
genericamente, têm empregos de baixos
salários e isso significa que aquelas crian-
ças crescem num ambiente muito pobre:
em bairros com menos condições, onde os


há um gap de competências entre negros e
brancos, mas que acredito que tem muito
mais que ver com o ambiente familiar, com
fatores sociais. Agora isso não pode ser dis-
cutido, porque o movimento BLM vê uma
afirmação destas como racista. Mesmo em
termos académicos, a discussão deterio-
rou-se bastante e continua a piorar. Mesmo
num lugar como a Universidade de Chica-
go, que é vista como um muito liberal, tem
sido difícil... Ainda recentemente tivemos
um caso de uma pessoa que foi suspen-
sa porque escreveu um texto a questionar
porque temos um dia dedicado a Martin
Luther King. A sensibilidade está em níveis
tremendamente elevados.

Mesmo entre académicos?
A título de exemplo, há uns tempos esta-
va a comentar com um investigador negro,
de uma instituição à qual tenho ligação, os
meus estudos sobre o impacto do ambien-
te familiar no sucesso das crianças. O que
ele me disse foi: “Está a dizer que as nossas
famílias são más?” E eu respondi-lhe que
“são famílias com poucos recursos, é isso
que lhe estou a dizer. Que é preciso dar-
-lhes mais recursos para que as crianças
se desenvolvam melhor”.

Portanto, voltamos à questão da impor-
tância da família onde se nasce.
O que me incomoda é o porquê de tantos
negros saírem da escola a meio, não agar-
rarem as oportunidades de irem para uma
faculdade... e, novamente, acho que isso
tem que ver com a família. Mas agora isto
é assunto tabu. O que acho muito perigo-
so é criarmos uma imagem de os negros
serem indivíduos desamparados, discri-
minados pelo sistema. Juro-lhe, a maioria
dos negros não são pobres. Eles beneficiam
de uma série de programas governamen-
tais, do Affirmative Action, e o BLM ignora
uma série de dados. Se não entendermos o
problema, não o vamos resolver. E o BLM
não entende. Há discriminação, sim. Não
vou negar. Mas há muito progresso. Há vá-
rios afro-americanos entre os mais ricos
(e não são apenas dois ou três). A questão
é: o que cria essas diferenças raciais? Tem
muito que ver com o comportamento e a
cultura da sociedade. Bom, neste caso, e
em resumo, acho que a razão não está a
prevalecer.

gangues são um problema, as escolas são
más....enfim... Dito isto, quando olhamos
para a taxa de pobreza nos EUA, ela é alta, é
de cerca de 25 por cento. Mas nem todos os
negros são pobres. E quando olhamos seria-
mente para os números, e para a definição
de pobreza, esse número cai. O [professor]
Bruce Meyer, e outros investigadores aqui da
Universidade de Chicago, têm feito um tra-
balho muito meticuloso a calcular qual a real
medida da pobreza, e ela não inclui uma sé-
rie de apoios governamentais que as famílias
recebem, nem o impacto das importações de
produtos chineses, que permitem aos pobres
ter acesso a bens a preços muito mais bai-
xos em lojas como o Walmart. Se essas va-
riáveis forem tidas em consideração, a per-
centagem de pobres no país cai para 15 por
cento. Mais de 80% das famílias negras, nos
EUA, têm pelo menos um carro, frigorífico,
televisão, habitação própria...Não estou a di-
zer que não há um problema, mas acho que
as coisas têm de ser postas em perspetiva.

Mas não há um problema no acesso à edu-
cação?
As estatísticas até mostram que é muito
mais provável que as crianças negras vão
à escola, e cheguem à universidade, gra-
ças ao Affirmative Action, implementado
há cerca de 50 anos. Portanto, em termos
de probabilidade, ela é maior entre os ne-
gros – e isto serve para homens e mulhe-
res. Aliás, uma investigação recente mos-
tra também que os negros com um curso
superior ganham mais do que um branco
com o mesmo curso e as mesmas compe-
tências. Agora, não podemos ignorar que

ULLSTEIN BILD/ GETTY IMAGES