Luiz Henrique Mandeta - Um Paciente Chamado Brasil

(Antfer) #1

falando sobre o SUS, sugeri que se concentrasse no que chamamos de atenção
básica (ou primária) à saúde que ele não erraria, ou seja, acesso universal,
indissociabilidade da saúde ao desenvolvimento econômico-social e
participação social — três componentes caros ao SUS, diga-se de passagem
—, e que falasse do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS).
“Diga que irá fazer gestão clínica das doenças.” “Fale de ações, que vamos
diminuir o custo pelo cuidado, pela prevenção.”
O Onyx depois me procurou e falou:
“Obrigado, você vai ser ministro. O cara vai ganhar”.
“Ainda tem muita água para passar debaixo dessa ponte”, foi o que
respondi.
Mas ele estava subindo, e cresceu ainda mais. Sempre que perguntavam
para o Bolsonaro sobre saúde, ele dizia alguma coisa que eu havia falado para
ele. Eu tinha dado um exemplo para ele sobre a prematuridade: “Se você
tratar os dentes das mulheres, resolvendo eventuais focos inflamatórios ou
uma gengivite, você diminui a chance de um parto prematuro. Do mesmo
jeito, se você focar na infecção urinária, também diminui o parto prematuro”.
E logo depois ele soltou numa entrevista que trataria os dentes das grávidas.
Falou de um jeito meio truncado, então as reportagens saíram com um tom
jocoso, dizendo que Bolsonaro propunha tratar a cárie das mulheres para
evitar bebês prematuros.
Dali para a frente, toda vez que era questionado sobre algum assunto da
área de saúde, dizia que havia conversado comigo. Como eu tinha tido uma
atuação muito forte nesse tema no Parlamento, esse tipo de declaração
agradava aos médicos. Então, quando ele falava Mandetta, as mídias sociais
dele recebiam uma enxurrada de médicos comentando: “Sou Bolsonaro,
Mandetta na saúde”. Virei o álibi do médico envergonhado de votar no

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