Um lugar bem longe daqui

(Carla ScalaEjcveS) #1

você. Preciso calcular seu tamanho para dizer para eles. — Ela a levou até a
lojinha. — Vamos sentar bem aqui e você vai me dizer que que você está
precisando de roupa e de outras coisas.
Depois de elas conversarem sobre a lista, Mabel traçou o contorno dos pés de
Kya num pedaço de saco de papel pardo e disse:
— Bem, volte amanhã e vai ter uma pilha aqui para você.
— Muito, muito obrigada, Mabel. — Então, em voz mais baixa, acrescentou:
— Tem mais uma coisa. Encontrei uns pacotes velhos de sementes, mas não sei
nada sobre jardinagem.
— Ora, ora. — Mabel se inclinou para trás e deu uma risada grave que saiu do
fundo do seu peito generoso. — Claro que eu sei jardinar.
Ela percorreu o passo a passo com muitos detalhes, em seguida pegou sementes
de abóbora, tomate e moranga em alguns jarros na prateleira. Separou cada tipo
dentro de um pedaço de papel dobrado e desenhou o vegetal do lado de fora. Kya
não sabia se Mabel tinha feito isso porque não sabia escrever ou porque sabia que
Kya não conseguia ler, mas funcionou para ambas.
Enquanto subia no barco, ela agradeceu aos dois.
— Fico feliz em ajudar a senhorita, Srta. Kya. Volte amanhã para pegar suas
coisas — disse Mabel.
Naquela mesma tarde, Kya começou a preparar as fileiras onde costumava ficar
a horta de Ma. A pá fazia barulhos metálicos ao se mover pelos sulcos, espalhando
um cheiro de terra e desencavando minhocas rosadas. Então Kya ouviu um clic
diferente e se abaixou para desenterrar uma das antigas fivelas de cabelo feita de
metal e plástico de Ma. Esfregou-a delicadamente no macacão até toda a sujeira
sair. Como se estivessem refletidos no adorno barato, a boca vermelha e os olhos
escuros de Ma ficaram mais nítidos do que em muitos anos. Kya olhou em volta;
com certeza Ma estava subindo a estradinha naquele exato momento, vindo
ajudá-la a revirar a terra. Finalmente em casa. Uma imobilidade como aquela era
coisa rara; até mesmo os corvos tinham se calado, e ela escutava a própria
respiração.
Separou mechas de cabelo e prendeu a fivela acima da orelha esquerda. Talvez
Ma nunca fosse voltar. Talvez alguns sonhos devessem simplesmente passar. Ela
levantou a pá e com um golpe esmigalhou um torrão de argila dura.


*


Quando Kya foi de barco até o cais de Pulinho na manhã seguinte, ele estava
sozinho. Talvez a forma gorda de sua esposa e suas belas ideias houvessem sido
uma ilusão. Mas ali, em cima do cais, estavam duas caixas de coisas para as quais
ele apontava com um largo sorriso.
— Bom dia, Srta. Kya. Isto aqui é para você.
Kya pulou no cais e encarou os caixotes que transbordavam.
— Pode pegar — disse Pulinho. — É tudo seu.
Com delicadeza, ela tirou lá de dentro macacões, calças jeans e blusas de

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