muito make love not war, se bem que a filosofia anti-consumista da moda não
parecesse encaixar naquele luxuoso casarão e o ambiente pretensamente
despojado do jardim não deixasse de ser bastante contraditório com os carros
estacionados à porta, o mordomo de luvas brancas, os criados fardados e o
Veuve Clicquot . Nuno estava justamente a meditar nisso quando o dono da
casa o descobriu.
— Bem-vindo à minha festa hippie — saudou-o. E então Nuno percebeu
que se tratava de uma festa temática e não de um verdadeiro bando de
seguidores do Flower-power.
— Estava a ver que não te encontrava — comentou, à laia de cumprimento.
— Não, meu, tenho andado por aí a sentir a energia, tás a ver? Há uma onda
muito positiva nesta cena, tás a sentir?
Nuno olhou para ele espantado. Vestia jeans boca-de-sino bordados com
flores e uma camisa oriental de enfiar pelo pescoço, com riscas verticais em
tons de cinzento e beije. Os seus olhos brilhavam, está pedrado, o sacana.
Nuno olhou para o relógio de pulso, preocupado. Onze e sete, fazia-se tarde.
— Estás a sentir, meu, estás a sentir o tempo fluir, a liberdade? Tens de te
deixar ir, meu, tens de ficar na tua, tás a ver? Há um grande mistério esta
noite, tás a ver? E, repara, ninguém nos pode impedir de vermos a cena toda,
o grande desígnio, de...
— Queres esta merda, ou não? — Nuno mostrou-lhe o saco da TAP,
impaciente, não tenho tempo para aturar este gajo.
— ... de abarcarmos o grande significado da... da coisa... é a cena da
coca? — perguntou, tentando agarrar o saco, mas sem o conseguir porque
Nuno afastou-o do seu alcance.
— É — disse. — É a cena da coca.
— Fixe, meu, vamos curtir, vamos curtir...
— Vamos curtir, mas primeiro tens de pagar. Tens o dinheiro?
— Claro, meu, eu não te disse?
— Então, vamos para um sítio mais discreto para tratarmos disto.
— Okay, vamos nessa.