(Antfer) #1

O disco rígido continha uma espécie de espelho do computador pessoal de Marcelo.
No STF, o procedimento foi autuado em segredo de justiça. Em agosto do ano passado,
Fachin enviou os autos para análise da Procuradoria-Geral da República. Àquela
altura, os dados já haviam sido processados e era possível realizar pesquisas por
palavras-chave. Foi a partir dali que, mergulhando no universo dos arquivos ainda
secretos do empreiteiro, os procuradores destacados para atuar nos processos da Lava
Jato que correm na PGR descobriram que aquela mensagem revelada por Crusoé em
abril de 2019 era só uma de dezenas que faziam menção a Toffoli e aos vários assuntos
que a Odebrecht tentou resolver, sempre buscando a ajuda do hoje ministro, no
período em que ele era chefe da AGU no governo Lula.


Os procuradores viram nesse conjunto de e-mails indícios suficientes para apurar, nas
palavras deles, “o possível cometimento de fato penalmente relevante por José Antonio
Dias Toffoli, praticado à época em que ocupava o cargo de advogado-geral da União”.
As trocas de mensagens, com a devida contextualização, chegaram a ser reunidas em
uma peça bem-acabada que deveria ser enviada na sequência a Edson Fachin pelo
procurador-geral da República, Augusto Aras, pedindo a abertura de um procedimento
específico para apurar as suspeitas relacionadas a Toffoli. Não se tem notícia, até hoje,
de que Aras tenha dado o devido encaminhamento ao material. Em vez de serem
reconhecidos pela coragem da iniciativa, os procuradores que realizaram o trabalho só
tiveram problemas – em junho passado, eles pediram demissão coletiva e deixaram o
grupo de trabalho da Lava Jato na PGR por discordarem do animus de Augusto Aras
em relação à operação.


O mesmo grupo, como o leitor verá mais adiante, havia preparado um segundo pedido
de investigação que poderia alcançar Toffoli, desta vez em razão de sua relação com
outra empreiteira, a OAS. Na primeira quinzena de julho, uma reportagem do
jornalista Diego Escosteguy narrou os bastidores do esforço vão dos procuradores e
revelou alguns dos principais achados relacionados ao ministro. Crusoé avançou na
apuração e teve acesso, com exclusividade, não só à íntegra do material reunido pelos
investigadores como também à gravação de um depoimento sigiloso no qual, por quase
quatro horas, dois dos integrantes da então equipe da Lava Jato na PGR, com
autorização do ministro Edson Fachin, ouviram Marcelo Odebrecht sobre os arquivos
relacionados a Toffoli.


O conjunto do material é eloquente. Conjugados os e-mails e as respostas prestadas
em viva voz por Marcelo Odebrecht, é possível saber, por exemplo, que a empreiteira
pagou caro a um escritório de advocacia indicado pelo próprio Toffoli para
“intermediar” a relação com ele. Marcelo Odebrecht não chega a cravar, com todas as
letras, que essa era uma forma de repassar dinheiro ao ministro, mas afirma que os e-
mails, que sugerem a existência de um esquema para remunerar os favores por meio
do tal intermediário, são claros (assista aos principais trechos do vídeo ao longo desta
reportagem). O empreiteiro também relata que era comum o envio de presentes a
Toffoli e conta que, em pelo menos duas ocasiões, se reuniu pessoalmente com ele,
fora de agenda oficial, para estreitar a relação e para tratar de assuntos de interesse da