Público - 01.11.2019

(Ron) #1

6 | ípsilon | Sexta-feira 1 Novembro 2019


álbum lá para Cabo Verde, mas enga-
nou-se, não sabia, e eu encontrei as
fotos. Quando encontrei fiquei tão
triste...”. Acredita que Joaquim levou
o álbum de propósito para ser “apa-
nhado”. A outra Vitalina acabaria por
roubar dinheiro a Joaquim e fazer
uma casa no Tarrafal. “Fez muito
bem”, diz afirmativa.
Ao peito, traz um colar e um terço,
em branco marfim. Nunca antes ti-
nha representado. Quando lhe per-
guntamos isso, fala da catequese e do
facto de ter sido catequista em Cabo
Verde, durante anos. Lembra um tio
que era catequista, Nezinho, e atrás
de quem “corria” por causa disso. “O
meu tio ensinava as crianças a ben-
zer, eu ficava de joelhos no chão,
gostava de ensinar as crianças”, devia
ter “sete ou oito anos”. Nunca quis
ser catequista em Portugal. “A dou-
trina em Cabo Verde é diferente”,
comenta, dando a entender que lá é
mais exigente.
Desde criança que trabalha: come-
çou na horta, nas coisas de casa. A
mais velha de sete irmãs e de um ir-
mão, tinha meses quando foi viver
com a avó, porque ela disse à sua mãe
que queria criar a neta. Foi em casa
da avó que aprendeu a ler e a escrever
com os primos, dois gémeos, dese-
nhando as palavras com um pau na
terra.
Com o pai teve igualmente uma
relação à distância porque ele imigrou
para França durante anos; só recen-
temente é que regressou a Cabo
Verde. A mãe, porém, nunca saiu de
Figueira das Naus.
“Católica, apostólica, romana”:
define-se. Fala da religião como algo
essencial. Isso percebe-se na leitura
que faz da sua vida — e que faz tam-
bém do filme com o seu nome.

A partilha do sofrimento
Foi no Cinema Ideal, em Lisboa, que
Vitalina viu pela primeira vez o filme
completo e montado. “Vi duas vezes
antes de ir a Locarno. Fiquei muito
contente. Fiz uma coisa para ficar
bem.” Se alguém quiser saber sobre
o que é o filme, o que responde? “Ah,
é sobre a minha vida e o meu sofri-
mento.” Um sofrimento que é inte-
ressante partilhar com quem vê o
filme porque “as pessoas que estão a
passar uma vida difícil vêm que há
uma pessoa que sofreu mais antes

delas”, responde. “Ninguém vive sem
sofrer. O sofrimento às vezes traz ale-
gria, outras vezes traz tristeza. Às
vezes a pessoa perde a força e a cora-
gem mas quando está a sofrer a pes-
soa ganha coragem para vencer
aquele sofrimento e continuar para a
frente. Sofri muito mas quando Deus
viu que eu não conseguia aguentar
mais ele cortou aquele sofrimento.”
Ouvindo a história do casamento,
ficamos a pensar: durante as ausên-
cias do marido não se apaixonou por
ninguém, não pensou em reconstruir
a vida? “Não! Fiquei farta dessas coi-
sas”, responde, a rir. Perdeu a con-
fiança nos homens mas afirma que
“um homem só vale quando tem uma
mulher”. Repete várias vezes: “É a
mulher que dá valor ao homem”.
Não hesita: “As mulheres carregam
a cruz.” A determinada altura evoca
o sofrimento de Jesus, descreve a
cena em que Maria teve que limpar o
sangue do corpo de Cristo. Pode tirar-
se uma lição de Valentina Varela:
“Este filme é para todas as mulheres
que sofrem. Eu sofri com muita coisa.
Se as mulheres vêem que eu sofri, um
dia também vão ficar livres.”
Em casa de Vitalina entra o senhor
que está a fazer as obras. A música
toca alto. Vitalina fica a saber que o
filme ganhou mais um prémio, do
Festival International du Film de la
Roche-sur-Yon em França ( já depois
da entrevista, o filme receberia o Pré-
mio do Júri do Festival de Cinema de
Chicago, Silver Hugo). Ela brinca, ri,
diz que Pedro Costa farta-se de ga-
nhar prémios porque fez o filme com
ela. “Eu não digo que um homem não
vale nada sem uma mulher?”, ri. Mas
também fala do realizador várias ve-
zes para afirmar o quanto a ajudou:
“Se não fosse o Pedro Costa eu não
estava viva”. Quando recebeu o pré-
mio em Locarno, Vitalina disse: “É
um testemunho do amor com que
rodámos este filme e do amor que
recebemos aqui no festival.”
Quando chegou à Cova da Moura
em 2013 a sua vida era bem diferente.
Em Cabo Verde estava a filha, que
hoje trabalha no mercado de Sucu-
pira, na Praia, capital de Santiago, a
vender rebuçados, água e outros
bens; e o filho, que entra numa cena
do filme em Cabo Verde, e que mora
em casa da avó. Os dois estudaram,
com o dinheiro que Vitalina conse-

Um dia Pedro Costa bateu à porta de uma casa
na Cova da Moura. Apareceu Vitalina vestida
de preto, com aquele olhar. Foi como
“uma aparição”, conta o realizador

“A coisa política é o trabalho que


ela fez — de se expor ou de se


representar a ela própria. Se há


uma política é essa: o trabalho


ter chegado a este resultado


com aquilo que ela diz”


Pedro Costa


afirma. “Parada não dá”.
Muitas das casas da Cova da Moura
foram construídas pelos moradores,
ocupantes do bairro que surgiu nos
anos 1960 mas que começou a crescer
a partir dos anos 1970 com a chegada
de retornados, de imigrantes e de
portugueses de várias regiões. Hoje a
população está estimada em cerca de
seis mil habitantes, maioritariamente
de origem africana. Entre as ruas lar-
gas ou esguias há uma cidade dentro
da cidade: comércio, restauração,
escolas, serviços sociais, actividades
culturais, ocupação de tempos livres
para crianças e terceira idade, muitas
delas dinamizadas pela associação
Moinho da Juventude, pólo fulcral no
tecido social deste lugar.
Uma das grandes paixões de Vita-
lina é cuidar da horta, onde pode es-
tar o dia todo sem se lembrar de co-
mer ou de beber ou de tomar os re-
médios. Já teve várias, uma delas não
muito longe de casa.
Senta-se num banco dentro de
casa, fala enquanto pega numa agu-
lha. Quem a conhece diz que está
sempre a fazer crochet. Em Lo-
carno, onde o filme recebeu o Leo-
pardo de Ouro e Vitalina o prémio de
melhor interpretação, costurou uma
camisola completa. Mostra-nos blu-
sas, bolsas, atoalhados, mantas, um
sem número de peças, algumas com
linhas de cores fortes que vêm de
Cabo Verde.
Depois levanta-se e vai buscar um
álbum de fotos da família. Um a um
apresenta o marido defunto quando
era novo, a mãe, irmãs, a casa em
Cabo Verde, os filhos, as crianças que
criou ainda antes de ser mãe biológica
— inclusive uma menina que encon-
trou no lixo quando tinha dois meses
e que hoje tem quatro filhos. Conhe-
cia a casa muito antes de a conhecer
de facto porque a vira em fotografias,
tiradas pelo marido; no fundo era
como se tivesse percorrido os quar-
tos, a cozinha, a sala, o quintal.
Aquele espaço é, de resto, fulcral
num filme onde Vitalina está a fazer
o seu luto. E onde partilha, além de
outros sofrimentos, as traições do
marido. Conta-nos algo que diz no
filme: “Há uma menina que o meu
marido arranjou que também se cha-
mava Vitalina, mas era outra Vitalina.
O meu marido tirou fotos dela na casa
de banho e na cozinha. Ele levou o


RICHARD DUMAS

e

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